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iFood aposta em patinete e gaveta nas entregas

Conteúdo Estadão- Inspirada em gigantes como a Amazon, startup testa novos formatos de transporte, com tendência de serviços integrados

Se depender do iFood, sua próxima pizza não vai chegar de moto, mas sim de patinete, drone ou até mesmo em uma gaveta na portaria do prédio.

Avaliada em mais de US$ 1 bilhão desde novembro de 2018, a startup de entrega de refeições tem testado novos jeitos de fazer comida chegar até a porta de seus 12,6 milhões de usuários brasileiros.

Com os novos meios de transporte, a empresa espera alcançar duas metas: aumentar sua eficiência logística e, consequentemente, fazer crescer o número de pedidos em seu aplicativo, seja conquistando novos clientes ou fazendo os atuais “repetirem o prato”.

Entre os testes, o projeto que está mais adiantado é o dos patinetes elétricos: hoje, 150 entregadores rodam com os veículos pela Avenida Paulista e na Vila Olímpia, na capital paulista.

Um dos que levam uma mochila com as refeições é Alex Guedes, de 22 anos. Desempregado e sem carteira de motorista, ele nunca tinha andado de patinete elétrico até começar a fazer entregas com o aparelho.

No primeiro dia, Guedes recebeu instruções básicas para pilotar o veículo – em especial, o jeito certo de dobrar o patinete.

É uma habilidade estratégica: na fórmula do iFood, entregador que não precisa estacionar porque dobra seu meio de transporte pode entregar um pedido em menos tempo. “Além disso, a gente sua e cansa menos que se usasse a bicicleta”, diz ele.

Para Fernando Martins, gerente de inovação e logística do iFood, a novidade deve ampliar o número de entregadores na plataforma. “O patinete é uma opção para quem quer complementar renda e não sabe dirigir moto”, afirma.

Aluga-se patinetes

Para usar os patinetes, entregadores como Guedes pagam aluguel à Scoo, startup brasileira nascida em outubro.

Sem recursos para fazer frente à investida das rivais Yellow e Grin, que se fundiram na Grow, a Scoo apostou em parcerias corporativas.

O Estado apurou que o valor médio mensal do aluguel de patinetes custa R$ 100, mas varia para cada entregador. Parte da taxa é inicialmente subsidiada pelo iFood – as empresas não revelam o valor “cheio” do aluguel.

Para os entregadores autônomos, que faturam por volume de entregas, ser mais produtivo também é útil.

Foi o que atraiu Sérgio Bentes, de 29 anos. “O patinete também é mais seguro, porque posso levá-lo comigo até o restaurante ao invés de estacioná-lo, como preciso fazer com a bicicleta”, diz.

Desde 2018, ele trabalha 12 horas por dia fazendo entregas com uma bicicleta emprestada.

Agora, parte de seu turno é feito com o veículo elétrico – os patinetes usados pela empresa têm autonomia de quatro horas e cada entregador só pode pegar um por dia.

Nos próximos meses, a Scoo pretende trazer ao Brasil um modelo que suporta 11 horas ininterruptas de uso, apenas para entregas. “Ele vem da China, será mais seguro, mais durável e vai guardar informações sobre a direção do veículo”, explica Denis Lopardo, presidente da Scoo.

Os “novatos” também terão uma segunda cidade a desbravar: até o fim do ano, o iFood almeja ter cerca de 1 mil patinetes rodando em São Paulo e em Campinas.

Apesar das perspectivas otimistas da empresa, a estratégia não é considerada imbatível. Para Luiz Alberto Albertin, professor de administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), pouca gente tem patinete em casa e o aluguel não resolve o problema. “A quantidade de pessoas disposta a fazer esse investimento tende a ser menor do que quem usa um ativo que já possui”, afirma.

“Tá na gaveta”

Outra ideia em testes é o iFood Box: armários colocados na porta de prédios comerciais e residenciais com grande fluxo de pessoas.

Todo armário é térmico – o que, espera o iFood, evita que o açaí derreta ou a batata frita fique murcha. Em vez de entregar a refeição na mão do cliente, a comida é deixada em uma das gavetas.

Uma senha enviada para o usuário, via smartphone, permite desbloqueá-la. Hoje, já há 50 armários em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas.

Não é uma ideia nova: desde 2011, a Amazon pratica algo similar nos EUA, em mais de 50 cidades, inclusive com refeições. “É algo disruptivo para o Brasil”, diz Sérgio Molinari, diretor da consultoria especializada na área Food Consulting. “Também melhora a logística porque diminui o tempo de entrega e permite a realização de vários pedidos de uma vez.”

Também pode ser um jeito do iFood chegar onde nunca pode – a ideia da empresa é ter armários em áreas públicas, como parques, aeroportos e universidades.

Outra possibilidade são os restaurantes terem armários próprios para a retirada dos pedidos – o que pode evitar filas e isentar taxas de entrega.

No céu e na terra

Há ainda duas ideias ambiciosas nos planos do iFood. Uma já foi testada de forma controlada durante o Carnaval: drones.

Outra foi alvo de redes como a pizzaria Domino’s: robôs autônomos. Na visão da startup, eles podem fazer uma parte importante do percurso de uma refeição – levar a comida do restaurante até o entregador. Para serem viáveis, porém, ambas precisam de regulação governamental.

Para Albertin, investir em outras opções de transporte não é uma opção para o iFood. “A startup é grande e briga por mercado, em um horizonte de serviços que tendem a ficar ainda mais integrados”, diz. “Ao investir nisso, o iFood se põe na dianteira.” Se não o fizer, porém, diz ele, pode sofrer o risco de ficar fora de uma tendência global.”

 

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